“Eu comprei esse processo”: celular de Zampieri expõe suposta rede de venda de sentenças que provocou terremoto no Judiciário em MT

O que começou como a investigação de um assassinato em Cuiabá acabou se transformando em uma das maiores apurações sobre suposta corrupção no sistema de Justiça brasileiro. Mais de dois anos após a morte do advogado Roberto Zampieri, executado a tiros em frente ao próprio escritório, o celular apreendido pela Polícia Civil continua produzindo desdobramentos que atingem magistrados, advogados, servidores de tribunais, empresários, operadores financeiros e lobistas em diversos estados do país.

A mais recente revelação envolve mensagens atribuídas a Zampieri nas quais ele demonstraria preocupação com a manutenção de uma decisão judicial em uma disputa milionária por terras em Mato Grosso. Em um dos diálogos investigados, o advogado teria escrito: “Cuide para nada mudar a decisão do TJMT”. Em outra conversa, a frase que mais chamou a atenção dos investigadores: “Eu comprei esse processo (…) estou nela há mais de dez anos”.

As mensagens passaram a integrar o conjunto de provas analisado na Operação Sisamnes, que apura a existência de uma suposta estrutura voltada à comercialização de decisões judiciais e ao vazamento de informações sigilosas dentro do sistema de Justiça. Segundo as investigações, Zampieri teria negociado o pagamento de aproximadamente R$ 250 mil para garantir uma decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em um processo relacionado a uma disputa fundiária.

O nome que aparece como elo central dessa engrenagem é o do lobista Andreson de Oliveira Gonçalves. Preso durante o avanço das investigações, ele é apontado como o operador responsável por intermediar contatos entre clientes interessados em decisões favoráveis e pessoas com acesso privilegiado aos bastidores dos tribunais. A Polícia Federal suspeita que Andreson mantinha uma ampla rede de relacionamentos capaz de alcançar gabinetes de tribunais estaduais e cortes superiores.

A partir da análise do celular de Zampieri, as autoridades identificaram trocas de mensagens, minutas de decisões judiciais, movimentações financeiras consideradas atípicas e indícios de acesso antecipado a documentos que ainda não haviam sido publicados oficialmente. Em alguns casos, segundo os investigadores, decisões judiciais circulavam entre integrantes do grupo antes mesmo de serem disponibilizadas nos sistemas do Judiciário.

O alcance das descobertas provocou uma reação em cadeia. O material extraído do aparelho contribuiu para o afastamento de desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e também do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Juízes, assessores e advogados passaram a ser investigados por suspeitas de participação em um esquema que teria movimentado milhões de reais por meio de contratos simulados, consultorias fictícias e operações destinadas a ocultar a origem dos recursos.

Em Mato Grosso, as investigações atingiram diretamente desembargadores suspeitos de manter relações indevidas com Zampieri. A Polícia Federal sustenta que havia uma proximidade incompatível com a função jurisdicional e que determinados julgamentos poderiam ter sido influenciados por interesses externos. Parte dessas suspeitas surgiu justamente das conversas encontradas no aparelho do advogado assassinado.

Os reflexos também chegaram a operações mais recentes. Em Mato Grosso, uma das frentes de investigação alcançou um advogado e um deputado estadual apontados como integrantes de um núcleo financeiro que teria atuado na movimentação de recursos investigados. A apuração passou a examinar supostas triangulações patrimoniais, transações imobiliárias e movimentações financeiras sem justificativa econômica compatível.

O caso ganhou ainda mais gravidade quando a Polícia Federal identificou indícios de que informações sigilosas sobre operações policiais estariam sendo repassadas antecipadamente a investigados. A suspeita levou ao aprofundamento das investigações sobre vazamentos e possíveis mecanismos de proteção utilizados pela organização para evitar prisões e apreensões.

Mas talvez o capítulo mais impressionante tenha surgido quando as investigações sobre o assassinato de Roberto Zampieri revelaram a existência de uma organização paralela conhecida como Comando C4. Segundo a Polícia Federal, o grupo seria composto por militares da reserva e outros integrantes especializados em espionagem, monitoramento e execução de pessoas mediante pagamento. As apurações indicam que integrantes da organização participaram diretamente do homicídio do advogado.

De acordo com a denúncia, Zampieri foi morto a tiros em dezembro de 2023 ao deixar seu escritório em Cuiabá. A execução teria sido encomendada em meio a disputas envolvendo interesses milionários. Parte dos acusados já responde judicialmente pelo crime e deverá ser submetida ao Tribunal do Júri.

Enquanto o julgamento dos executores avança, o conteúdo armazenado no celular da vítima continua produzindo novos desdobramentos. Para investigadores, o aparelho se tornou uma verdadeira “caixa-preta” capaz de revelar como funcionava uma suposta rede de influência que, segundo as suspeitas, ultrapassou as fronteiras de Mato Grosso e alcançou algumas das mais importantes estruturas do sistema de Justiça brasileiro.

A expectativa é que novas fases da Operação Sisamnes sejam deflagradas nos próximos meses. As autoridades seguem rastreando fluxos financeiros, analisando dispositivos eletrônicos e aprofundando a identificação de pessoas que possam ter participado do suposto esquema. O que já se sabe é que o celular encontrado ao lado de um advogado assassinado transformou-se em uma das mais explosivas fontes de investigação da história recente do Judiciário.

Fonte: Judiciário

Foto Montagem: Andreson mantinha uma ampla rede de relacionamentos, incluindo Zampieri

Publicado em:12 jun. 2026, 09 AM

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