Infraestrutura se torna desafio para expansão do agronegócio brasileiro

O Brasil reúne condições para ampliar ainda mais sua importância no fornecimento mundial de alimentos nas próximas décadas, mas o avanço da produção agrícola dependerá da capacidade de enfrentar gargalos estruturais que ainda limitam a competitividade do setor. Entre os principais desafios estão a insuficiência de armazéns, as dificuldades de transporte, a necessidade de ampliar a irrigação e o elevado custo do crédito.

O cenário foi discutido durante o Fórum Mais Milho: Os Pilares da Produção, realizado em Brasília, onde especialistas avaliaram os principais fatores que podem determinar o futuro do agronegócio brasileiro.

Um dos pontos de maior preocupação é a armazenagem. O país apresenta um déficit superior a 130 milhões de toneladas, enquanto Mato Grosso, líder nacional na produção de soja e milho, concentra uma diferença próxima de 50 milhões de toneladas entre o volume produzido e a capacidade disponível para armazená-lo.

A situação é agravada pela baixa participação das propriedades rurais na estrutura de armazenagem. Apenas cerca de 15% da capacidade brasileira está instalada dentro das fazendas. Com isso, muitos produtores precisam retirar rapidamente os grãos das propriedades, aumentando a pressão sobre rodovias, ferrovias e demais corredores de escoamento, principalmente durante o período de colheita.

O crescimento da produção também tem ocorrido em ritmo superior ao da expansão dos armazéns. Na última década, a produção brasileira de grãos avançou cerca de 17 milhões de toneladas por ano, enquanto a capacidade de armazenamento aumentou, em média, entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas anuais.

Em Mato Grosso, onde a produção agrícola segue em expansão, esse desequilíbrio ganha proporções ainda maiores. A expectativa é de continuidade do crescimento do milho, impulsionado principalmente pelo avanço do mercado de etanol e pela produção de derivados como o DDG, utilizado na alimentação animal.

Especialistas avaliam que parte dessa expansão poderá ocorrer por meio do aproveitamento de áreas já disponíveis, especialmente com a recuperação de pastagens degradadas, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas agrícolas.

Água também entra no centro das discussões

Outro fator que pode determinar o desempenho da agricultura brasileira nos próximos anos é a disponibilidade de água. A ocorrência mais frequente de estiagens e eventos climáticos extremos aumenta a necessidade de mecanismos capazes de reduzir os impactos das oscilações climáticas sobre as lavouras.

Nesse contexto, a irrigação aparece como uma importante ferramenta para garantir maior estabilidade à produção. O país possui aproximadamente 10 milhões de hectares com potencial irrigável, e a estimativa é de que essa área possa chegar a 15 milhões de hectares no médio prazo, com possibilidade de expansão ainda maior no futuro.

Para que isso aconteça, porém, será necessário superar entraves relacionados ao licenciamento ambiental, autorização para utilização dos recursos hídricos, construção de estruturas para armazenamento de água e oferta de energia elétrica.

Além dos impactos sobre a produtividade, a irregularidade no regime de chuvas também pode elevar os custos para o produtor, aumentando o risco de perdas nas lavouras e contribuindo para o endividamento rural.

Transporte é outro gargalo

Mesmo quando a produção está pronta para ser comercializada, o sistema de transporte ainda representa um obstáculo importante. A elevada dependência das rodovias e a necessidade de ampliar a integração com ferrovias e hidrovias encarecem o deslocamento dos produtos e reduzem a eficiência logística.

A avaliação apresentada no fórum é de que o país precisa avançar para um sistema multimodal, no qual rodovias, ferrovias e hidrovias sejam utilizadas de maneira integrada, considerando as características e a capacidade de cada meio de transporte.

Nesse cenário, ampliar a armazenagem dentro das propriedades também poderia contribuir para reduzir a pressão sobre a infraestrutura. Com espaço para conservar os grãos, o produtor ganha maior liberdade para decidir quando transportar e comercializar a produção, evitando a concentração de cargas nos períodos de maior movimento.

Crédito é fundamental para investimentos

A modernização da infraestrutura agrícola também depende de recursos financeiros. A construção de silos, sistemas de irrigação e outras estruturas exige investimentos elevados, mas as condições de financiamento ainda são consideradas um obstáculo para muitos produtores.

Representantes do setor defendem a criação e ampliação de linhas de crédito específicas, com juros mais adequados e menos burocracia, principalmente para projetos de armazenagem dentro das propriedades.

A diferença em relação a mercados como Estados Unidos e Europa também foi destacada. Nesses locais, investimentos em estruturas de armazenamento historicamente contam com condições de financiamento mais favoráveis.

Demanda mundial aumenta pressão sobre o Brasil

A urgência em solucionar esses gargalos está diretamente relacionada às perspectivas de crescimento da demanda mundial por alimentos. Projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que a população mundial poderá alcançar aproximadamente 9,6 bilhões de pessoas até 2050.

Com o aumento populacional concentrado principalmente em regiões da Ásia e da África, a necessidade de alimentos tende a crescer de forma significativa. O Brasil, devido à sua capacidade produtiva e disponibilidade de áreas já utilizadas pela agropecuária, aparece entre os países com maior potencial para atender parte dessa demanda.

Para transformar essa oportunidade em crescimento sustentável, entretanto, será necessário olhar além da produção dentro da porteira. A expansão do agronegócio depende de uma estrutura capaz de armazenar, transportar, financiar e garantir água e energia para o campo.

Armazéns, logística, irrigação, crédito e infraestrutura energética estão diretamente conectados. Se um desses componentes não acompanhar o ritmo de crescimento da produção, os efeitos acabam chegando ao produtor e podem aumentar os custos, reduzir a rentabilidade e comprometer a competitividade dos alimentos brasileiros no mercado internacional.

O desafio do agronegócio brasileiro, portanto, não é apenas produzir mais, mas construir as condições necessárias para que essa produção chegue ao consumidor de maneira eficiente, competitiva e sustentável.

Fonte: Ascom

Entre os principais desafios estão a insuficiência de armazéns

Publicado em:14 ago. 2026, 02 PM

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